14.7.04

POPULISMO E REFORMISMO (Junho 2000)



Tornou se hábito em Portugal definir um campo político como a "direita”, ou as "forças não socialistas” para designar o PSD e o PP e apresentar a sua aliança como um processo natural e inevitável, como consequência de interesses comuns que sobrelevam as diferenças. A designação é, do meu ponto de vista, enganadora, programática e politicamente perigosa para o PSD, porque insinua identidades onde elas não existem e oblitera diferenças que são essenciais.
O actual PP não é nada difícil de caracterizar politicamente: é um partido populista, assente numa liderança pessoal demagógica, e estrategicamente aliado com o PS. O seu populismo comunica com a direita radical e a extrema direita, muitas declarações de Paulo Portas que obedecem a uma lógica clara de extrema direita são sistematicamente ignoradas por uma comunicação social que se excita com frases bem mais pacíficas de Haider , e a sua estratégia política consiste no ataque ao PSD como inimigo principal e no serviço ao PS. Mesmo depois das "conversações” supostamente existentes com o PSD, o PP mostrou o à evidência saindo para a rua com Basílio Horta e aproveitando os santos populares para avançar com a sua candidatura à Câmara de Lisboa, actos políticos que, no seu timing, só têm um sentido: atacar o PSD e não os socialistas.
É para mim muito claro que o PSD não se pode afirmar na vida política sem se demarcar claramente deste aliado do PS, e sem afirmar o seu reformismo contra o populismo de direita. Qualquer cedência política e ideológica ao populismo põe em causa o programa reformista do PSD. Deixemos de parte a questão das alianças locais a nível autárquico que obedecem a uma lógica diferente. Da mesma maneira que o PSD não deve abandonar um diálogo com o eleitorado do PP, também deve incentivar os entendimentos locais, sem prejuízo para a estratégica nacional do PSD. Mas não é isso que se discute quando se fala da "AD”.
O PSD tem hoje e sempre um dilema muito simples: ou é reformista ou não é. Precisemos ambas as opções. Comecemos pelo "não é”. "Não é” não significa não existir, significa não ter papel autónomo, estar subordinado a estratégias e lógicas alheias. Isto quer dizer que, várias vezes, o PSD existindo, "não foi”.
Há na história do PSD duas formas dominantes de existir, "não sendo”. Uma é a subordinação ao PS no "bloco central” quer no governo, quer no terreno pastoso dos interesses partilhados: toma lá este gestor, aprova esta gestão. Infelizmente a forte cultura clientelar que existe na vida política torna este "bloco central” poderoso e um dado permanente da nossa vida pública. Uma das razões do "ódio” ao "cavaquismo”, como antes ao "sá carneirismo”, veio da tentativa de ruptura deste "bloco” e dos interesses que ele representa. Porém, a história e a tradição política interna no partido dificultam a tradução desta aliança de interesses num governo de "bloco central”. Esta é um dos raros componentes relativamente consolidado de tradição reformista no PSD.
A outra forma, bem mais perigosa e actual de existir "não sendo”, é a permanente tentativa de reduzir o PSD a um partido de direita ou a um pilar de uma frente de direita. Esta tentativa existe desde a fundação do partido e quem melhor a combateu no plano político e ideológico foi Sá Carneiro. Num partido cheio de "sá carneiristas” de bater no peito, este é um aspecto da acção de Sá Carneiro tão clara e unívoca como o seu combate ao "prec”.
Desde os primeiros dias do partido até ao dia em que escrevo, houve uma contínua tentativa de mudar o carácter do PSD, ou tomando o ideologicamente, ou jogando com alas ou "barões”, ou propondo a sua divisão criando um "partido liberal” que depois se aliasse à direita. No dia em que se puder fazer com distanciação a história do PSD perceber se á a continuidade dessa orientação, vinda de dentro e de fora, quase sempre com as mesmas pessoas e as mesmas propostas.
Já insisti suficientemente noutros textos sobre o facto do PSD só ter tido um papel na vida política portuguesa quando se afastou do "bloco central” ou do frentismo de direita e isso inclui a original AD que não era uma aliança da direita "contra” a esquerda, mas sim, sob a hegemonia estratégica do PSD, uma frente reformista e de mudança contra os bloqueamentos constitucionais e políticos vindos de 1975 e mantidos pelos "complexos de esquerda” e pelo imobilismo do PS.
Acresce que aquilo que passa por ser hoje uma "AD” uma aliança táctica ambígua e confusa com um partido populista em nome da frente "anti socialista” é para as lideranças do PSD sempre uma tentação de facilidade. A "AD” póstuma de 1999 cuja memória real agora interessa esquecer era uma aliança entre lideranças competitivas, a que nunca correspondeu qualquer movimento de bases, qualquer empatia, qualquer entusiasmo. O seu objectivo prático era a desresponsabilização das direcções partidárias frente a resultados eleitorais problemáticos. O seu resultado foi profundamente desmobilizador do PSD como revela um dado hoje também esquecido: a soma dos dois partidos estava em todas as sondagens abaixo da do PSD nos seus piores momentos. Era uma solução completamente artificial, que nascera da ideia que a mera soma dos votos criaria um elan político. Mas a verdade é que este tipo de alianças não soma, subtrai e subtrai ao PSD. Daria ao PS o eleitorado central que lhe permite maiorias.
O que há de perigoso nestas soluções para o PSD é, como disse, que elas são soluções de facilidade. Escondem a única política que verdadeiramente pode permitir ao PSD as duas coisas que são precisas: ser alternativa de governo e alternativa de política. Para isso é vital a afirmação autónoma do PSD como partido reformista, propondo as mudanças difíceis que o país precisa e fazendo um enorme esforço de credibilizar se na sociedade que lhe permita maiorias de governo. É natural que opositores do reformismo afirmem que isto é impossível e queiram atirar o PSD para os braços do PP. Mas também ouvi dizer que eram absolutamente impossíveis num sistema proporcional com quatro partidos, as maiorias absolutas, e no entanto aconteceram.
É difícil? É. A principal dificuldade é que não basta propor soluções políticas correctas, é necessário credibilizar o partido, ligá-lo aos sectores mais dinâmicos da sociedade. E isso, para qualquer liderança, significa problemas internos. Faça se a justiça de referir que somente a direcção saída do Congresso de Vila da Feira iniciou uma política neste sentido com a chamada "refiliação”. Apesar das enormes resistências internas este era o único caminho, associado a reformas como as eleições directas a nível distrital. Mas também é verdade que já durante a fase final dessa mesma direcção este processo começou a ser abastardado e hoje encontra se completamente descaracterizado. Os pagamentos colectivos de quotas, o caciquismo, os sindicatos de voto, voltam na razão directa da perda de influência do partido na opinião pública. É preciso que os líderes do PSD compreendam que só rupturas claras com os vícios do partido o credibilizam junto da opinião pública, e que essa credibilização é condição sine qua non para haver alternância política.
Por tudo isto penso que é vital que o PSD mantenha a sua liberdade crítica face ao PP que é seu adversário não por ser "de direita”, mas porque age em coligação com os socialistas e objectivamente contra o PSD. O PSD tem que dizer com clareza que deseja um projecto reformista para Portugal e que esse projecto é incompatível com o populismo do PP.


1 Comments:

Blogger Catarina said...

Bom, devo dizer que além do blog ser bastante recente está muito bem escrito!! Principalmente porque concordo mais ou menos com as ideias expostas.
Continua que vais bem :)

10:48 da manhã  

Enviar um comentário

<< Home