14.7.04

POLÍTICA DA CULTURA DE SANTANA LOPES E CARRILHO (MAIO 1996)



Sob a égide de Malraux e de Lang, o que é copiado como "estratégia" deste Ministério de "esquerda", não é sequer o intervencionismo do Estado, é em primeiro lugar o papel da "cultura" como instrumento de propaganda e legitimação política dos governos e dos ministros. O intervencionismo decorre daí. Foi aliás o mesmo Jacques Lang que inspirou o Dr. Santana Lopes, como ele expressamente admitiu... e que mostra que há mais continuidades do que diferenças. Aliás o intervencionismo cultural é muito semelhante nos seus resultados, mesmo quando difere nos métodos.
O Secretário de Estado Santana Lopes percebeu que na área da cultura para se sobreviver era preciso "intervir", ou seja "subsidiar". Foi o que ele fez com habilidade, começando por "subsidiar" extensivamente o teatro, criando logo de imediato uma clientela e colocando contra si, todos os outros grupos que desejavam idênticas benesses. Depois, contando com a natural inércia dos "subsidiados", mudou para outra área cultural, onde certamente, se tivesse tempo, recolheria idênticos apoios. A seguir passaria para outra área e assim sucessivamente, sempre no mesmo ciclo de dador de benesses do Estado e de recebedor do apoio político dos intelectuais beneficiados. Em todos os sítios onde deu, recebeu. Mas como os recursos eram escassos, esta política gera sempre a prazos mais fome do que fartura.
Esta política era desordenada, caótica e pontual? É verdade. O Ministro da Cultura hoje deseja-a ordenada e "institucionalizada" administrativamente? Deseja. Esta política era feita com base nas preferências pessoais dos governantes e nos seus "gostos" e "desgostos" nem sempre muito "informados culturalmente"? Era. Mas o Ministro da Cultura, tendo a vantagem de ser do meio, logo ser mais "informado", e conhecer melhor os mecanismos de legitimidade estética hoje circulantes, não deixa de fazer a mesma coisa só que com maior cobertura "cultural". Mas a política é rigorosamente a mesma como uma análise estrutural às despesas do Ministério, às suas prioridades e ao seu modus operandi revela.

(Maio de 1996)

3 Comments:

Blogger Carlos said...

Santana e a política cultural
Santana Lopes, enquanto ligado á secretaria de estado da cultura, foi caracterizado como sendo um politico, que soube contentar as clientelas. Como diz Pacheco Pereira, ao distribuir benesses, favores e dinheiro a uns terá deixado outros de fora, e esses naturalmente, entraram em protesto e colisão com toda a politica cultural seguida. Ganhando apoios aqui e negociando ali! Mais tarde baralhando e dando de novo, no melhor estilo do "dividir para reinar" Onde é que Pacheco Pereira está errado? Em nada, ou melhor no que deixa transaparecer nas entrelinhas. A leitura que ele faz do fenómeno Santanista enquanto elemento determinante na politica cultural, é a do fatalísmo irremediável. Tudo se passará mais ou menos do mesmo modo, com todos os governos, com mais ou menos visibilidade. Um ministro mais visivel e mediático produzirá mais efeito na opinião pública, e um individuo discreto entrará mudo saindo depois bem calado. O fim é sempre o mesmo: esbanjamento de recursos e a instalação da subsidio-dependência, tendo como fim único e fulcral, a sobrevivencia política do agente. E resume Pacheco Pereira toda a politica cultural ao marasmo redutor da mediocridade e conluio. Todos os incompetentes que não sabem como fazer um exito dum concerto ou duma peça de teatro, recorrem ao subsídio. Dando a uns e só mais tarde a outros constrói a sua teia tácita de apoios baseado em ódios e estimas, promessas e desilusões, espectativas e adiamentos. No fim o Estado desperdiça dinheiro em lixo! Como exercício de retórica não deixa de ser perfeito, e os argumentos do Pacheco tendem sempre para a perfeição. São redondos e autosustentam-se. A falha porém descobre-se na simples observação histórica do fenómeno artistico. Quase todas as grandes obras de arte foram subsidiadas. Nem seriam tão grandiosas se não o fossem. Os artistas são de modo geral gentes de parcos meios. A sua grandeza é de outro nível! Os Medicis não seriam reconhecidos se nao fosse o enorme impulso que eles deram ao avanço da arte. E as duas vertentes completaram-se: Meios finançeiros e génio deixaram um legado para a Humanidade. Por isso não é liquido dizer que os subsidios sejam desperdícios de recursos. Poderão se-lo de facto, mas poderão constituir uma alavanca que ajude á afirmação pela criatividade e experimentalísmo, pelo génio e pela exclusividade. Não me sai da memória o recente caso de António Domingos, Génio mundial do Piano ajudado por Duarte Lima e colocado depois de alguma estupefacção no lugar que ele merece entre os seus pares. Meses a fio treinava piano numa mesa, ensaiando um vez por semana num velho instrumento, por favor e no meio de barulhos e marteladas! O Estado não cumpriu com António Domingos, nem com outros tantos Antónios Domingos, ignorados e anónimos que mereciam um Mecenas. Porque é essa a missão do Estado. Não esbanjar recursos. Não contentar a fileira de boys, mas fazer com que todos aqueles que queriam e possam ..."por obras valorosas da lei da morte...libertar-se". E é aí que reside a missão do ministro: Apoiar e não servir-se do posto para promoções pessoais baseados em esquemas inconfessáveis!

1:37 da manhã  
Blogger Filipe Castro said...

So nao acho bem comparar o Santana Lopes com o Carrilho! E como comparar o Manuel Arouca com o Tolstoi...

Filipe Castro

2:35 da tarde  
Blogger ruigato said...

podem ver mais informação sobre arouca em arouca.biz

2:48 da manhã  

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